domingo, 3 de maio de 2009

Os Impolutos



O título desta postagem pode parecer uma provocação ou mesmo um palavrão, mas há tempos venho me perguntando quem são os personagens que comumente encontramos nos horários nobres desvendando os casos mais escabrosos de corrupção que graçam pelo país. Ora um delegado, ora um juíz, ora um procurador ou promotor, todos desfilando impávidos e destemidos pela TV respirando o ar do dever cumprido ao apresentarem sonegadores, contrabandistas e até assassinos devoradores de criancinhas.

Cada vez que assisto a cenas deste tipo fico impressionado não com os crimes cometidos pelos malandros de plantão, mas sim com a desenvoltura dos acusadores. Acima de qualquer suspeita, tecem tramas sobre como desvendaram supostos esquemas maquiavélicos envolvendo perigosos bandidos. Apresentam-se donos da verdade enquanto os acusados saem dos automóveis escondendo-se sob braços, camisas ou fichários, como se estes objetos camuflassem seus próprios erros ou identidades.

Desde a mais remota era encontramos narrativas de heróis e anti-heróis. A figura do mocinho e do bandido nos é ensinada quando bem pequenos, sendo que alguns de nós se identificam com a figura do mocinho e outros não. Por isso sempre existirá bandidos a serem combatidos e sempre haverá a figura do bem a combatê-los. Mas será este mocinho uma pessoa impoluta? O que passa na cabeça de alguém que combate o erro alheio mas é capaz de errar mesmo que simplesmente avançar o sinal de trânsito?

Conforme postagens anteriores, você já deve ter percebido que sou completamente avesso à religião, entretanto não deixo de conhecer suas origens ou aprender alguns de seus ensinamentos. Uma das maiores lições que tirei do Evangelho foi a história em que Jesus foi perguntado pela população em fúria contra uma adúltera, pronta para linchá-la, se deveriam ou não cumprir a sentença de apedrejá-la até a morte. Sem encará-los e enquanto rabiscava na areia, Jesus falou em voz baixa para todos: - Atire a pedra aquele que nunca pecou. Dito isto, imediatamente a turba enfurecida desistiu de executar a pena atribuída à pobre mulher e voltaram em silêncio para seus afazeres.

A partir daí passei a compreender melhor aqueles que erram. Portanto quando vejo um corregedor, delegado ou qualquer um daqueles personagens já citados anteriormente acusando entusiasticamente diante das câmeras qualquer pessoa, fico a imaginar o quão imaculado deve ser aquele sujeito para que, sem pestanejar, aponte os pecados alheios. 

Lembro-me de um caso recente em que um sujeito ficou preso indevidamente por dois anos acusado de matar a namorada juntamente com dois "comparsas". Descobriu-se agora que a mulher fora vítima de um serial killer paulista que confessou o crime. Ao ser questionado sobre como conseguiu condenar os três sujeitos, o promotor simplesmente falou que houve um equívoco esquecendo o quanto lutou bravamente para condenar os inocentes rapazes.

Mas qual a relação psicanalítica envolvendo estes fatos anteriores? Podemos falar sobre os mecanismos de defesa do Ego que se fazem presente nas pessoas acusadoras. A "projeção" é um destes mecanismos e se revela quando os crimes imputados ao réu são inexistentes ou maiores do que efetivamente o foram. Porém o evidenciado é a presença da "formação reativa". A honestidade ostensiva e a retidão absoluta desses senhores suplantam o desejo imenso de praticar atos maldosos ou danosos contra alguém. Ocupando tais cargos, este desejo maligno transforma-se em "benfeitoria" para a sociedade, podendo assim continuadamente fazer mal a muitos de forma justificada independente do culpabilidade do réu e o melhor de tudo, sendo bem remunerado por isso.

Essa turma de impolutos servidores se estivessem presentes na narrativa bíblica acima, além de executarem a pena de Maria Madalena, aproveitariam a ocasião para apedrejar Cristo acusando-o de cúmplice e incentivador da imoralidade.

Um comentário:

Ramires disse...

Parabéns pela matéria. Acho que guardar "a pedra" deveria ser uma obrigação para toda e qualquer autoridade que detenha a prerrogativa de julgar ae aplicar penalidades. O pior mesmo é quando o bandido se traveste de "mocinho", para, simplesmente, satisfazer seu ego. Abraços.