terça-feira, 23 de junho de 2009

A Psiquiatria e Psicanálise



Outro dia deparei-me com uma manchete em um jornal online que versava sobre o ciúmes, assunto já abordado neste blog. A chamada dizia que o ciúmes em excesso poderia ser caracterizado como uma doença. Interessou-me a reportagem e cliquei sobre o link para aprofundar-me no assunto, porém decepcionei-me com o que li: uma renomada psiquiatra dissertou sobre o ciúmes e nada falou sobre causas ou curas, disse apenas que seu excesso merece tratamento terapêutico. Também não disse que tratamento terapêutico era este, donde concluí, conforme Shakespeare, que não havia nada de novo no reino da Dinamarca.

Freud possivelmente seria um psiquiatra caso esta especialidade médica existisse em sua época, mas como não havia, especializou-se em Neurologia, um ramo da medicina que, de certa forma, "mexe" com o cérebro. E em seu começo de carreira, constante em sua bibliografia, experimentou uma gama de tratamentos a fim de verificar quais deles efetivamente apresentavam algum resultado que o satisfizesse. Dentre os tratamentos, chegou inclusive a aplicar choques elétricos em seus pacientes, algo que posteriormente reconheceu como pitoresco e inútil, mas necessário a sua sobrevivência., pois era remunerado por isso.

Freud logo descobriu que os remédios eram ineficazes contra os problemas psíquicos das mulheres histéricas de um manicômio austríaco e, a partir daí, desenvolveu sua teoria psicanalítica. Não temos notícias de novas prescrições administradas por ele desde então. Abandonou os anos de estudo da faculdade de medicina para tratar seus pacientes a partir da transferência, que nada mais é que trabalhar com escutas e palavras, sendo a primeira em número muito maior.

Todo psiquiatra tem uma formação médica, sendo seis longos anos de estudo e mais dois outros de residência. Neste tempo costuma realizar, paralelamente, diversos cursos especializantes sendo que a grande maioria é voltado para a área médica, aprendizado de anos a fio sobre as mais diversas doenças e, principalmente, sobre os mais diversos remédios. Não tenho conhecimento de que o médico em seu curso regular de graduação estude Filosofia ou Psicologia, mesmo como matéria opcional. Porém sei que antes mesmo de tornar-se doutor, além dos cursos, também participa de suntuosos congressos patrocinados pelos mais diversos laboratórios farmacêuticos, sendo cooptado, de forma sutil, por esta indústria desde o início de sua formação.

Depressão? Prozac ... Ansiedade? Lexotan... Hiperatividade? Ritalina... Insônia? Dormonid. E por aí vai. A solução médica aparece de forma mágica e rápida deixando o paciente satisfeito. As causas, em se resolvendo o problema, não interessam quais são, ou seja, os fins justificam os meios sacramentando cada vez mais o imediatismo hoje presente em nosso cotidiano. Para que resolver amanhã se podemos dar um jeito hoje? E nesta semana vi-me diante de um psiquiatra que também era psicanalista. Dizia fazer parte de uma sociedade psicanalítica no Rio de Janeiro e costumava participar de congressos nesta área, inclusive em outros países a convite. Durante nosso diálogo logo deixou transparecer que receitava a seus muitos pacientes alguns dos fármacos citados anteriormente.

Como vocês já devem ter percebido, diferentemente de Freud, tenho pouco conhecimento da mitologia grega, porém do Evangelho sei alguma coisa. E deste livro, lembro-me da história de um homem rico que perguntou ao Cristo se podia segui-lo em sua caminhada e pregação. Respondeu Jesus ao pretenso pupilo: - abandone todas as suas riquezas e siga-me. Dito isto, o futuro ex-seguidor desanimou-se e desistiu da empreitada, pois lhe era muito difícil abandonar tudo aquilo que conquistara com muito ardor. Esta história deu origem à celebre e discutível frase de que é mais fácil um camêlo passar pelo buraco da agulha do que um rico entrar no reino do céu.

E tal qual o rico da história anterior, caso o psiquiatra queira também ser chamado de psicanalista, deverá abandonar seus anos de estudo e conhecimentos adquiridos na medicina, esquecer os anti-depressivos e ansiolíticos para viver uma vida absolutamente casta em comparação com a glamourosa carreira médica que possivelmente teria. Deverá viver sem prescrever remédios, sem possuir diagnósticos na ponta da língua e muito menos soluções imediatas, pois a Psicanálise não tem regras definidas uma vez que cada ser humano é único, mesmo que suas neuroses ou psicoses sejam parecidas. 

Além disso o psicanalista também deve possuir humildade suficiente para reconhecer que pouco sabe daquele sujeito que lhe chega com algum problema em busca de ajuda uma vez que a ciência da Psicanálise, como bem sabemos, não é destinada a advinhões ou seres superiores. Para finalizar posso dizer que o Psicanalista de verdade em vez de química usa os ouvidos.

Sei não,... mas começo a achar que é mais fácil um rico entrar no reino dos céus do que um psiquiatra virar um psicanalista.

Um comentário:

Sandra disse...

Voce continua se superando. surpreendente como sempre.
sandra